Visão de futuro

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Bruno Aragão *

Na semana passada, depois de uma derrocada, o que restava do edifício do Centro Vidreiro foi demolido pelo seu proprietário. A demolição do que sobrava de um enorme complexo é mais emotiva do que material. Infelizmente, aquele património perdeu-se há muito e, como comunidade, não o soubemos ou conseguimos cuidar. Por muito que nos custe a todos, e custa, o que ali restava era irrecuperável.
Teve, no entanto, uma virtualidade. Lançou a discussão sobre a importância da preservação do património que é, quase sempre, um suspiro no final de linha. Um arrebate de emoções quando já pouco, ou mesmo nada, se pode fazer. Esquecemos que preservar é um trabalho de sapo: constante, diário e comunitário. Dá frutos anos e anos depois.
Nas últimas décadas perdemos praticamente todos os vestígios da nossa arquitetura industrial, particularmente do vidro. Saber que somos o berço vidreiro é historicamente importante, mas tivemos sempre muita dificuldade em preservar e contar essa história.
A Câmara Municipal tem algum espólio, reunido ao longo dos anos, que nunca mereceu especial cuidado, nem tratamento museológico. O projeto do Centro de Interpretação do Vidro, na Casa do Mateiro, foi mais um exemplo da gestão que denunciámos: fundos comunitários devolvidos e uma candidatura de 1,4 milhões de euros perdida. É um enorme problema para resolver e, com a verdade de sempre, ainda não o conseguimos. São bem complexas as suas questões legais e financeiras.
Não é à toa que tantas vezes insisto na importância do tempo. Este é um bom exemplo. Por um lado, não se recupera o tempo perdido e o que ele levou. Por outro, é preciso tempo para recuperar o que nos resta quando muito pouco foi feito. A candidatura da Tradição Vidreira a património cultural imaterial da UNESCO é, por isso, central para Oliveira de Azeméis. Porque se já perdemos património, não perdemos ainda, seguramente, a nossa História.

* presidente da comissão política concelhia do PS