Um Natal visual

Ana Isabel da Costa e Silva

A instalação de uma árvore de Natal, pela primeira vez, em 1931, no Rockefeller Center, em Nova Iorque, durante o Período da Depressão, adquiriu uma presença, em continuidade no tempo, e um significado alargado, em expansão no espaço. Se, por um lado, ao erguer a árvore naquela altura, os homens, que trabalhavam na construção daquela obra, davam um sinal de companheirismo e esperança, por outro lado, inauguravam um acontecimento que marcaria, para sempre, o espaço da cidade, na época natalícia.
A presença da Árvore de Natal, ao longo do tempo, colocada, sempre da mesma maneira, naquele espaço, em Nova Iorque, tem uma eficácia devido a um conjunto de fatores, que trabalham em complementaridade, nomeadamente a hierarquia, a acentuação de alinhamento, o contraponto entre vazio/cheio.
Num espaço artificial, de cariz romântico, com um ambiente natural marcado pela presença de árvores, muitas delas centenárias, qual é o significado das luzes de Natal ‘mais ou menos’ espalhadas pelo Parque de La-Salette? Qual é o sentido? Percorrer, apenas?
Considero que, antes de tudo, precisamos de vazios, bem pensados, para que os elementos dispostos, com sentido, possam construir significado e possam dar lugar à imaginação, ou seja, entrar dentro de si. No Parque assim decorado, embora tenha o mérito de ser uma novidade para os adultos e alegrar as crianças, obriga a que permaneçamos como espectadores, ocupados a ver, que nos impele no sentido inverso, ou seja, sair de si.
Fácil, tilitante, confuso, pré-fabricado. É um Natal visual. Um amontoado de símbolos são palavras de Tolentino Mendonça, da oração ‘Não pode ser só isto’, do livro ‘Um Deus que Dança’. Itinerários para a oração, que utilizo para caracterizar as luzes de Natal do Parque da La-Salette.
Para refletirmos sobre estas iniciativas natalícias, peço emprestadas as palavras de Gonçalo M. Tavares, do livro Atlas do corpo e da imaginação. Teoria, fragmentos e imagens, quando escreve sobre o questionar: não basta, pois, o espanto imóvel, o espanto contemplativo, precisamos de um espanto agressivo, que ameace, que questione. Um espanto que sabe para onde vai.
Desejo a todos os leitores e a todos os oliveirenses um Natal solidário, atento e, sobretudo, questionador. 
 * Arquiteta e docente da  Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, natural e residente  em O. Azeméis
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