Bodas de Diamante do Padre Reis

Concelho

Natural da vizinha freguesia de Válega, onde viu a luz do mundo a 28 de Janeiro de 1923, o Padre Manuel Pereira Reis celebrou a primeira Missa em Macinhata da Seixa no dia 13 de Dezembro de 1975. A última, já com visível sacrifício, seria a 10 de Julho de 2000. A partir daí um doloroso calvário até que a morte veio pôr termo ao longo martírio no dia 23 de Outubro de 2000, no Instituto de Oncologia do Porto. Ordenado sacerdote na Sé do Porto aos vinte e três anos de idade, em 1946, o jovem pastor, ao jeito da época, foi nomeado coadjutor da paróquia de Valbom, no concelho de Gondomar, de onde rumaria até as agrestes terras de Albergaria das Cabras e de Cabreiros, paróquias que foram a dura tarimba de sucessivas gerações de jovens ordenados. Chegou então o momento da chamada para terras de Pedorido, do concelho de Castelo de Paiva, onde arrostaria com a conclusão das obras da nova igreja paroquial, sob a invocação da padroeira Santa Eulália, iniciada pelo pároco Alcino Vieira dos Santos e considerada para a época uma ‘obra de arte’. Entretanto, o Padre Reis, que havia já demonstrado qualidades oratórias, aceita o convite do seu Prelado para que dirija a Liga Eucarística dos Homens, e foi nesta para si apaixonante missão que calcorreou o Mundo, percorrendo cerca de cinquenta países e pregando praticamente em todos os locais onde existissem comunidades de portugueses. Algo cansado desta vida de peregrino, e assistindo com natural preocupação ao envelhecimento dos pais, manifestou desejo de voltar à vida paroquial. A chamada do Padre Manuel Pires Bastos para Ovar trouxe-o até Macinhata da Seixa, onde permaneceria durante vinte e cinco anos menos dois meses. (Um máximo de permanência só ultrapassado em um ano (1845 – 1871) pelo Padre Luís António Nunes de Pinho, da Casa do Rego, em Pinhão, falecido na casa de Gemieiro, junto de sua sobrinha Maria Rosa Nunes dos Reis, que ali casara com Domingos Martins Soares. Um casamento com numerosa prole, recordando-se o médico Albino Soares Martins e o engenheiro Luís Soares Martins, que presidiu à nossa Câmara e jaz entre nós). Carácter determinado e irrequieto, de imediato se empenhou em dar continuidade ao projecto do antecessor, o também saudoso Padre Bastos, então designado timidamente por ‘Casa da Criança’. Um projecto que teria início em 1978 e que abriria as portas no dia 1 de Fevereiro de 1989. Um longo e penoso percurso onde se caldeou de tudo: as conhecidas teias burocráticas da Administração Pública, a irresponsabilidade por parte dos dois primeiros adjudicantes, naturalmente as limitações de uma aldeia de milhar e meio de habitantes onde a indústria estava praticamente ausente. A inquebrantável força de vontade do Padre Reis, a sua tenacidade, o seu particular ‘jeitinho’ para a reunião de fundos — dando o exemplo ao abrir generosamente os bolsos, sendo de recordar que sempre ofertou o chamado folar — foram decisivos para a concretização do sonho. Quando o Centro Social e Paroquial de Santo André de Macinhata da Seixa abriu as portas, a instituição aparecia, na voz autorizada de altos responsáveis, como uma das melhor instaladas e apetrechadas do distrito. Seguir-se-ia a reconversão da arruinada residência paroquial em Centro de Dia, não esquecendo a reconstrução da Capela de Santo António e da Igreja Matriz. Aceita-se hoje sem esforço que o projecto de reconstrução da Matriz — uma obra dispendiosa e de grande arrojo — não terá sido tão bem conseguida como se desejaria. Mas quem conhece as atribulações do processo — e, naturalmente, está de boa fé — reconhecerá sem esforço que o saudoso Padre Reis não foi o responsável. Falharam os técnicos, ditos de renome e recomendados pela diocese. Em 15 de Setembro de 1996, acontecendo as bodas de ouro sacerdotais, a paróquia prestou-lhe homenagem, descerrando o busto esculpido pelo nosso conterrâneo António Mota. O bispo auxiliar D. Manuel Pelino associou-se à verdadeira consagração de uma paróquia unida e grata. Ocorreram agora as bodas de diamante do Padre Reis. Naturalmente envoltas no denso e negro nevoeiro do esquecimento. Sinais dos tempos. Ausentes a memória e a gratidão. (Escrito de acordo com a anterior ortografia).

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