Helena Terra – 24 de Abril, nunca mais!

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Helena Terra *

Era uma vez um país do sul da Europa, na Península Ibérica, que vivia entre o mar, a serra e a guerra colonial. Um país rural e pouco desenvolvido, com noites longas de inverno em que a fogueira cedo se apagava porque a lenha apanhada no chão dos pinhais era pouca e tinha de ser poupada para cozer ora batatas com couves, ora couves com batatas, de tempos a tempos regadas com uma tira de toucinho amarelado passado na sertã.
Mulheres que cuidavam de filhos que ficaram no ventre aquando da despedida dos pais na véspera de irem para o Ultramar. Mães vestidas de luto pelos filhos a quem uma mina roubou a vida em África. Noivas com vestidos gastos de tanto esperar por quem não chega de além mar.
À escola da aldeia rural, igual a todas as outras escolas de todas as aldeias, chegam meninos com um saco de cotim com uma alça cruzada no peito onde carregam a lousa, a vontade de aprender e um pedaço de boroa e uma cebola de conduto para aguentar o caminho e a jornada. Umas chancas pregadas a preceito calcorreiam as pedras da vereda e um saco de serapilheira, feito de capuz, protege da chuva fria única companheira de caminho.
Toca o sino na torre da igreja, faz sinal para anunciar o funeral de um anjinho, menino de três anos, filho da criada do regedor, que morreu na noite passada, depois de vários dias de um grande febrão e umas manchas no corpo que nem os pachos de água fria e o mingau de linhaça conseguiram curar e nem com a chamada do Doutor à cabeceira da cama foi possível vingar. Pobre mãe, coitadinha, que nasceu para não ter sorte, perdeu o filho e nem conheceu a mãe que morreu de parto.
O Estado é, para o povo, algo longínquo, identificado com o Dr. Salazar e cuja presença apenas se nota quando aparecem uns senhores, bem vestidos e de poucas palavras, à procura de alguém que, se encontram, convidam a entrar nos seus carros, os poucos que se veem circular. As reservas de uma economia que floresceu nos anos cinquenta são gastas na defesa do império colonial, numa guerra que consome dinheiro e vidas.
Nos finais da década de 1960, este país está cada vez mais isolado. Nos países vizinhos fervilha o ambiente social e intelectual e, aqui, ao lado do Atlântico, vive-se, sobrevive-se, orgulhosamente sós. No seio militar vai crescendo o descontentamento e surgem recusas de participação em manifestações de apoio ao regime. Há primaveras que jamais nos sairão da memória e madrugadas marcantes que determinam o dia inicial inteiro e limpo onde emergimos da noite e do silêncio e, livres, habitamos a substância do tempo…
Ah! Não tinha dito… este país é o meu Portugal!

* advogada