‘Devolver a cidade às pessoas’ foi o tema em análise na tertúlia dinamizada pela Azeméis TV/FM. Esta conversa contou com a participação dos arquitetos Ana Isabel Costa e Silva e Luís Pedro Silva, do engenheiro Marcus Shlickmann da OPT, Carlos Silva, Armindo Nunes e Helena Terra e decorreu na sequência do fórum da ADRITEM e do estudo dos alunos da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.

Oliveira de Azeméis como uma cidade com um “trânsito caótico”. Se “blindássemos” a cidade, resolveria o problema?
“O problema é o mau uso que damos ao automóvel. Temos que ter soluções alternativas dentro das cidades, mais agradáveis e tentar criar soluções que tornem a cidade mais interessante. Soluções como parques de estacionamentos periféricos são interessantes”
Eng. Marcus Shlickmann (OPT)

“Os alunos também detetavam o problema de esvaziar a cidade. Oliveira de Azeméis nunca foi um centro extremamente polarizador. É uma cidade que tem alguma carga histórica, com alguns fatores patrimoniais muito fortes, mas nas últimas décadas fragmentou-se muito e perdeu o ligante do núcleo forte que tinha”
Arquiteto Luís Pedro Silva, docente da FAUP e orientador do trabalho ‘Projetar Oliveira de Azeméis’

“Temos uma cidade simpática, no entanto, no dia a dia parece não funcionar. As pessoas têm tendência a usar o automóvel, agravado pela questão do desenho do espaço público. As pessoas com problemas de mobilidade têm muita dificuldade em circular; estamos perante um desenho que é preciso intervir e arranjar estratégias para tal”
Arquiteta Ana Isabel
Costa e Silva , colunista do Correio de Azeméis

“Aquilo que eu sinto é que o problema de Oliveira de Azeméis é antigo e que ninguém teve a capacidade de solucionar. Pensa-se muito no presente sem estratégia futura, uma visão redutora, individualista, em que os cidadãos acabam por não ser beneficiados. Há falta de políticas de fixação e de atratividade. Há falta de identidade da cidade”
Carlos Silva, ex-presidente da UF de Oliveira de Azeméis

“O automóvel vai continuar a ser um meio de transporte privilegiado. Não é fácil mudar o paradigma, pois é uma questão de racionalidade económica. Uma decisão concreta seria criar, nos acessos à cidade, estacionamentos que sejam gratuitos, e nas zonas mais centrais colocar dificuldades de estacionamento ou seja, regularizar o trânsito na cidade”
Armindo Nunes, ex-presidente da UF de Pinheiro da Bemposta, Travanca e Palmaz

“Antes da preocupação de devolver a cidade às pessoas, tem de haver a construção de uma cidade. Há um conjunto de aspetos técnicos que têm de ser definidos e redesenhar o espaço público com as devidas funções. Tem de haver um equilíbrio entre ter pessoas em circulação e o espaço tecnicamente redefinido”
Helena Terra, advogada e colunista do Correio de Azeméis

A falta de espaço público nas freguesias
“Uma das questões abordadas, no fórum promovido pela ADRITEM sobre a mobilidade, foram as freguesias rurais que carecem de espaço público de qualidade. Foi dito, na altura, que o monumento do cruzeiro do Pinheiro da Bemposta era um sítio interessante para se criar um espaço público de excelência e, também, a saída do nó de Salgueiros para Ossela”
Eng. Marcus Shlickmann

A localização da “excêntrica” Escola Superior Aveiro Norte e o “esquecimento” dos rios Ul e Antuã
“A Escola Superior Aveiro Norte está numa localização excêntrica e com um potencial incrível de divulgação. É um lugar importante que está num sítio muito estranho e que precisa de ser resgatado para fazer parte da condição urbana. Outra questão é a ausência dos rios Ul e Antuã no papel paisagístico da cidade. Temos que pensar nestes dois corredores naturais que não estão assim tão distantes da cidade e que podem ser pensados como mais valias numa visão futura de Oliveira de Azeméis”
Arquiteto Luís Pedro Silva

O “desmantelar” da história do Centro Vidreiro
“O Centro Vidreiro: para mim é de uma grande tristeza ver o que está a ser feito naquele espaço. Desde os anos 90 que isto tem sido um desmantelar de uma história que não foi aproveitada pelo município. Estamos em perda nesta questão simbólica. Tudo está a ser arrasado”
Arquiteta Ana Isabel
Costa e Silva

A “sobrevalorização” do futuro Fórum Municipal
“Quanto ao chamado Fórum Municipal, há aqui um claro empolamento daquilo que é o equipamento em si. Julgo que irá albergar dois ou três serviços, se tanto. Portanto, ser chamado de fórum municipal é uma sobrevalorização daquilo que o edificado vai na realidade albergar”
Carlos Silva

“O Fórum Municipal é um edificado que necessita de reabilitação; mas é o melhor espaço que nós podemos ter para a função que pretendemos dele? Do meu ponto de vista, parece-me que não. Numa altura em que está demonstrado por inúmeros técnicos que precisamos de abrir espaços nas cidades, vamos criar um edifício que continua fechado sobre si mesmo”
Helena Terra

A “ausência” de pessoas
na cidade
“Acho que devemos apostar em formas atrativas de receber a população. Estou a pensar em alguns pontos que já foram noutro tempo pontos de reunião como o jardim municipal, a praça José da Costa… Podíamos aproveitar o coração da cidade com uma praça com dimensão adequada, que desse uma dinâmica nova àquele ponto da cidade e onde as pessoas se pudessem reunir novamente”
Armindo Nunes

O parque de La Salette como a “pérola esquecida”
“O parque de La Salette é uma das nossas “pérolas”, mas esta precisa de ser bem tratada. Temos dois problemas lá que têm que ser resolvidos. A Estalagem de São Miguel que, daqui a pouco, é um monte de escombros. Outro problema é a iluminação. O espaço é de tal maneira escuro que as pessoas não conseguem ver por onde transitam”