Associação acusa Câmara e juntas de destruírem património

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Em 2012, a Associação D. Urraca Moreira (ADUM) deu início a um levantamento das antigas calçadas existentes no concelho de Oliveira de Azeméis, com o objetivo de entender melhor os caminhos do território.

Até ao momento, estão registados mais de 2.500 metros de calçadas no concelho, distribuídos pelas freguesias em 27 sítios diferentes. São o que restam de uma estrutura viária com dezenas de quilómetros e, recentemente, a Associação D. Urraca Moreira (ADUM) alertou a Câmara Municipal para o facto de uma destas calçadas históricas, em Santiago de Riba-Ul, ter sido alcatroada.

“Não são simples caminhos locais. Estamos a falar de estradas que entravam e saíam do território”, apontou um dos membros da ADUM, André Santos, em declarações ao Correio de Azeméis. “Só uma autoridade forte e com um vasto domínio do território poderia construir estruturas deste género”, enfatizou. Recentemente, foram alcatroados 70 metros de calçada em Santiago de Riba-Ul, perto da rotunda dos Transportes Álvaro Figueiredo. “Tudo indicava ser do período romano, com mais de 1.500 anos, num local onde não havia necessidade nenhuma de ser tapada”, considerou André Santos. “O único problema daquele caminho era a falta de limpeza”, acrescentou.

A ADUM, uma associação sem fins lucrativos que tem como objetivo zelar pela conservação da natureza e proteção do património histórico do concelho de Oliveira de Azeméis, lamentou que seja a própria Câmara Municipal e juntas de freguesias a destruírem este património histórico (ver caixa). “A conservação e preservação de pontes e calçadas antigas são importantes para o concelho. Para proteger as calçadas, basta não as destruir e realizar limpezas para as pessoas circularem, garantindo este legado para as futuras gerações”, simplificou André Santos. “Pedíamos à Câmara e às juntas que tenham mais sensibilidade e visão para o futuro do nosso património, que faz parte da nossa história e memória coletiva como oliveirenses”, apelou.

Os antigos caminhos do território

Segundo informações facultadas pela ADUM ao Correio de Azeméis, a construção destas calçadas no concelho, como no resto do norte de Portugal, terá tido um maior desenvolvimento em dois períodos distintos. Ao longo dos 500 anos de ocupação romana, principalmente nos séculos I a III depois de Cristo, o Império Romano organizava os territórios conquistados, construindo estradas e pontes para facilitar a circulação das suas tropas e bens.

No território do concelho de Oliveira de Azeméis, atravessaram estradas principais romanas como vias secundárias, ligando também os povoados romanos da altura, como o Castro de Ul, Castro de Ossela, Castro de Romariz e quintas romanas que foram surgindo ao longo dessas estradas.

As estradas romanas serviram perfeitamente durante a Alta Idade Média, mas cerca de mil anos após a passagem dos romanos, em plena reconquista cristã e formação de Portugal, terão sido construídas mais estradas no território. Depois de D. Afonso Henriques passar as Cortes do Condado Portucalense de Guimarães para Coimbra, em 1131, transformando, em 1143, Coimbra na primeira capital do Reino de Portugal, terá existido uma nova estruturação das estradas que ligavam a capital do Reino ao resto do território. As ligações de Coimbra ao Porto foram importantes para facilitar a ligação ao já estabelecido território a norte do rio Douro.

Terá sido no século XII que se deu uma reforma na Terra de Santa Maria, de que território que é, hoje, o concelho de Oliveira de Azeméis, fazia parte. Reforçaram o Castelo da Feira e construíram novas pontes e estradas. A chamada Estrada Real, que passava no lugar da Bemposta e no centro de Oliveira de Azeméis, terá sido construída nessa altura.

 

Esta fotografia, facultada pela ADUM ao Correio de Azeméis, diz respeito a uma antiga calçada em Santiago de Riba-Ul

A ADUM enviou ao Correio de Azeméis uma imagem que explica onde estava situada a calçada de Santiago de Riba-Ul que foi alcatroada pela Câmara Municipal

 

“Foi um erro ter sido asfaltada e assumimos isso sem qualquer problema”

No passado dia 09 de dezembro, a ADUM reuniu-se com o presidente da Câmara Municipal para perceber o que tinha falhado na conservação da calçada de Santiago de Riba-Ul e de que forma poderiam colaborar com o município. Segundo André Santos, o edil mostrou-se “recetivo” a uma maior proteção deste património. “Pedimos aos serviços municipais para avaliarem a intervenção que foi feita, que resultou de pedidos que fomos recebendo dos munícipes. Obviamente que, se aquela calçada era romana e devia ter sido protegida, não devia ter sido asfaltada”, afirmou Joaquim Jorge, em declarações ao Correio de Azeméis. “Foi um erro ter sido asfaltada e assumimos isso sem qualquer problema”, reconheceu. Em resultado da reunião, a ADUM, o executivo e um arqueológo municipal vão trabalhar em conjunto na criação de um inventário das calçadas antigas do concelho. “Depois, terá de ser devidamente validado para termos um plano de salvaguarda e de proteção desse património histórico”, declarou Joaquim Jorge.