A ferida

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*Eduardo Costa

Quase meio século depois da Revolução dos Cravos, o presidente Marcelo pôs o dedo numa ferida. De quando em vez alguém toca nesta ferida e percebe-se que não está fechada. A frontalidade do Presidente da República chama o assunto à discussão pública. Convida a sarar essa ferida.
No seu discurso, Marcelo recordou “o passado colonial de Portugal e pediu que se olhe para a História sem temores nem complexos, sem alimentar campanhas e combatendo intolerâncias”. Um apelo muito corajoso do “filho de um governante na ditadura e no império que viveu na que apelida de sua segunda pátria [Moçambique] o ocaso tardio inexorável desse império, e viveu depois, como constituinte, o arranque de um novo tempo democrático, charneira, como tantos portugueses, entre duas histórias da mesma História”.
Lembrando que “não há, nem nunca houve um Portugal perfeito (…), como nunca houve e não há um Portugal condenado”, Marcelo está a convidar a que se repense o modo como se conta a História do último século, metade em ditadura e metade em democracia.
Estará a democracia portuguesa madura o bastante para esta reflexão? Talvez esteja, se tivermos em devida conta que Portugal tem hoje um Presidente da República e um primeiro-ministro que são a coroa e a face dessa mesma realidade. Um é filho de um governante da ditadura e o outro é filho de combatentes dessa mesma ditadura. Dos dois, poderia sair a melhor análise da nossa História do último século. Talvez um bom desafio para Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa.

* jornalista, presidente da Associação Nacional da Imprensa Regional